Cânion do Xingó

Por Fabiana Novello

Gruta do Talhado. Cânion do Xingó.

Gruta do Talhado. Cânion do Xingó.

Meu encontro com o rio São Francisco não poderia ter sido melhor. Fomos apresentados durante uma viagem a Aracaju, em Sergipe. Era uma terça-feira de outubro de 2015, com muito Sol e calor. Nos tornarmos amigos.

O passeio era para o Cânion do Xingó formado pelas águas represadas pela hidrelétrica. A viagem até lá é longa e muito, muito, muito cansativa. Mas vale tanto a pena… Vale cada minuto dentro de uma van ou carro, cada segundo de calor passado. Vale demais! Porque é daqueles lugares que fazem a gente agradecer por existir, agradecer por viver.

Quem está em Aracaju, como eu estava, o ideal é sair bem cedo e seguir até Canindé de São Francisco, que fica a 212 km da capital sergipana. São 3 horas de viagem. No caminho, as paisagens do sertão e povoados. Que país diverso! Em Canindé, você pega um catamarã e navega durante uma hora pelo rio São Francisco. Que imensidão! Como é bonito esse tal de Velho Chico! Meu encantamento já começou ali.

Depois de uma hora navegando os paredões rochosos começam a aparecer e suas formas desafiam a imaginação do visitante. A velocidade da embarcação vai diminuindo… e os olhos vão se enchendo de tanta beleza.

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Meu lugar encantado. Gruta do Talhado.

O catamarã para num ponto de apoio. É hora de conhecer o trecho mais bonito do passeio: a Gruta do Talhado. Só canoas navegam ali. A água é verde, o caminho estreito, as rochas enormes. Pelas frestas, o céu azul. É a paisagem mais bonita que já vi. É o lugar mais encantado do meu pequeno mundo.

De volta ao ponto de apoio, é hora de mergulhar no rio São Francisco. Dizem que ali são 30 metros de profundidade. Me dá vertigem só de imaginar. Mas há uma rede no espaço reservado para o banho de rio que limita a profundidade a 10 metros. Perco o ar só de pensar. Mas, calma, para quem, como eu, a água fascina e causa medo, há coletes. E tem também um espaço bem mais, digamos assim, modesto, que deve ter 1 metro e 40 de profundidade. A água é densa, nem fria nem quente. Uma delícia!

E depois de tanto encantamento, tem a viagem de volta. Mais uma hora no catamarã. Almoço e mais três horas até Aracaju. Pra ser menos cansativo, acho que o ideal é passar a noite em Canindé. Eu faria tudo de novo. Já disse e repito: vale cada minuto. É o São Francisco! Muito prazer em te conhecer!

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Fazendo as pazes

Por Fabiana Novello

No início do ano, eu escrevi aqui sobre minhas decepções com a minha cidade no texto De mal de São Paulo. Pois então, demorou 7 meses, mas acho que hoje eu fiz as pazes com a minha cidade. Hoje eu olhei pra ela e gostei de novo.

Não deixei de ver seus defeitos. Não! Eu os observo todos dias e me revolto com eles. Mas sei que também tenho responsabilidade sobre eles e que se a gente quiser e fizer alguma coisa, São Paulo pode ser muito melhor.

Eu, por exemplo, comecei a cumprir uma promessa que fiz a mim mesma no ano passado também num post aqui. Comecei a andar mais a pé pela cidade e a deixar mais o carro na garagem. Dependendo do horário, vou a pé até para o trabalho numa caminhada que leva uns 40 minutos (com direito a uma parada para um espresso), ou 30 minutos num ritmo mais acelerado. A pé, dá pra ver melhor a cidade e ocupá-la com mais qualidade. Dá pra ver melhor as pessoas. Fora que espanta a preguiça.

Eu confesso que, às vezes, me canso dessa discussão toda entre ciclistas e motoristas. Ai, parece briga de torcida… uma chatice, me desculpem. Mas uma coisa é certa pra mim: quando São Paulo tiver menos carros nas ruas, ela será mais alegre, menos poluída, menos barulhenta, mais solidária, mais bem humorada. O trânsito só irrita e faz a gente perder um tempo danado. E não é no blá blá blá que as pessoas vão perceber isso. É experimentando. É dando uma chance para a cidade.

Eu estou tentando. Eu estou experimentando. É o começo. Uma pequena contribuição para a minha cidade. Ainda que as calçadas sejam uma pouca vergonha, que motoristas, motociclistas e ciclistas (também!) não respeitem os pedestres, São Paulo a pé é muito melhor, zilhões de vezes melhor do que de carro.

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Café, almoço e jantar

Por Leda Letra*

Paris

Paris

Manhã fresca de Primavera, nossa última em Paris. Optamos pelo mais conveniente e também o mais charmoso: petit dejeuner no hotel. Porque aquele não era qualquer hotel, era o Bourg Tibourg, em Marais. A sala do café da manhã ficava no subsolo. As escadarias de pedras e estreitas davam um ar de mistério, logo desvendado. Apenas quatro mesas redondas, poltronas antigas, paredes de pedra, obras de arte e a sensação de que estamos num canto escondido da casa de um parisiense especial, de requinte.

O preço era único, com direito a croissants, pães, manteigas, geléias, frutas frescas, café ou thé. Pergunto quais são as opções de chá, só entendo camomille. Escolha feita. Tudo saboroso, delicado, fino, deixando na boca uma vontade por mais, de querer mais Paris, de sair sabendo que iremos voltar. Um dia.

Era uma manhã de sábado e Paris havia se revelado ser simplesmente tudo aquilo que falavam e mais um pouco. Todas as definições clichês sobre Paris provaram ser verdadeiras. O Louvre, a Catedral de Notre Dame, a Torre Eiffel: que alívio saber que estive errada: as pessoas não exageram ao falar sobre esses lugares. Paris, Paris.

Já estamos no trem, voltando para Londres. A viagem é rápida, pouco mais de duas horas. Que lindo atravessarmos duas culturas, duas cidades, dois países assim, em questão de centenas de minutos. Repouso. Há muito mais Londres para amanhã.

Domingo. O almoço é na capital britânica. Em meio a andanças por Kensington, decido conhecer a famosa Harrods. Tradição e luxo misturados – a disposição dos produtos, o perfume no ar, a exclusividade das peças….entre suspiros e vista cansada, decido almoçar por ali. A praça de alimentação tem opções variadas, o preço é superior ao dos restaurantes, “mas é uma experiência”, me convenço.

Arrependida da relação preço-qualidade, lembro-me do almoço na semana anterior, no Piccadilly Circus, no Jamie’s Italian, o restaurante italiano do chef Jamie Oliver. Aquele espaguete à bolonhesa ficará para sempre marcado como o melhor almoço que já tive em Londres.

O domingo passa e preciso acordar bem cedo na segunda-feira. Mas não para trabalhar. A viagem continua, mas sem muita expectativa. Rever uma amiga é o principal objetivo da ida até o próximo destino.

Mas Berlim me surpreende! Tenho na minha amiga a minha melhor guia. Que cidade! Bela, limpa, organizada, com sabores novos, com supermercados raros, onde a globalização nem pensa em entrar. Passo horas e horas nos supermercados e farmácias de Berlim, examinando cada produto nacional, tentando entender do que são, para que servem. Berlim é moderna e antiga, é século 21 misturado à Guerra Fria.

O jantar de segunda-feira é por lá. Vamos para o bairro Kreuzberg. Fico confusa, parece que estamos entrando numa igreja. Lá dentro, uma espécie de galeria de paredes com grafite. E de repente, o restautante, lindo, lindo. Nem vejo o cardápio, quero experimentar tudo o que for novo para o meu paladar. A tradição do restaurante 3 Schwestern (ou “3 Irmãs”) é o käse spätzle, uma espécie de massa diferente, com molho de queijo. Delicioso. É Alemanha, então bebemos uma boa cerveja. Saímos pelas ruas da cidade, entramos em um bar. Brindo o privilégio de saborear, em três dias, três refeições em três países.

*Leda Letra é jornalista e uma das mais antigas colaboradoras deste blog

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Sobre viagens, amigos e Lisboa

Por Fabiana Novello

Torre de Belém. A foto foi feita por Renata Miranda

Torre de Belém. A foto foi feita por Renata Miranda

Pode parecer uma bobagem, mas acho incrível voltar a cidades e ir andando por suas ruas e lembrando de lugares já visitados, de histórias, de caminhos (ainda que errados). Andar seguindo a intuição, sem mapas (e olha que adoro mapas), acreditando que logo o destino aparece. E fazendo descobertas. Já foi assim em Madri, em Nova York, em Buenos Aires. É assim em São Paulo. Mas não será em muitas outras. Não porque não tenha gostado delas, mas porque uma vez bastou e não sinto vontade de voltar. Já Lisboa… Lisboa está definitivamente no grupo das cidades que pretendo visitar várias vezes.

A primeira vez que fui à Lisboa foi em 2012. Eu estava sozinha. Eu viajo muito sozinha. Era outono, choveu em alguns dias e fez frio. Mas a viagem foi incrível. Na época, elegi a Torre de Belém como um dos meus lugares favoritos na cidade.

A minha segunda visita ocorreu agora no fim de maio. Fui por causa do casamento de uma amiga querida. Fui madrinha! E o casamento fez a viagem ser totalmente diferente. Primeiro, claro, porque foi tudo muito lindo, delicado, emocionante. Segundo porque reuniu amigos de longa data que eu não vejo mais com tanta frequência porque cada um de nós tem seu caminho para seguir. Mas ainda assim são amigos. Com afinidades e divergências. E eu que sou super adepta ao “viajar sozinha”, amei estar com um grupo tão querido.

E Lisboa estava incrivelmente bela. Era Primavera, estava calor, às vezes mais de 30 graus, mas tinha um vento bom. E o Sol iluminando a cidade até à noite… Que lugar não fica ainda mais bonito com Sol e calor? Seus moradores pareciam mais alegres; dessa vez nem vi a tristeza que reparei nos rostos de alguns na minha primeira visita.

Árvore vermelha do Parque das Nações

Árvore vermelha do Parque das Nações

A viagem foi curta, mas deu para conhecer, por exemplo, a área do Parque das Nações. E suas lindas árvores, que nessa época estão vermelhas. A área não é encantadora como a parte antiga da cidade, com suas ladeiras, ruas estreitas, construções, pedras, azulejos. É bem diferente. É a Lisboa moderna! E é linda também. Lá está o Oceanário da cidade que acabei não visitando, mas deu pra brincar na cascata que fica do lado de fora com a filha de um casal de amigos que me fez ser um pouco criança e tornou tudo mais divertido, surpreendente. E andamos de teleférico!

A comida em Lisboa continua deliciosa, os doces maravilhosos e os portugueses atenciosos (sim!), ainda que às vezes tenham um jeito bem próprio de responder alguma pergunta, o que pode causar estranheza a nós, que somos de fora, mas que acaba sendo até engraçado. Falar o próprio idioma fora do Brasil é incrível, o rio Tejo continua lindo e a Torre de Belém… é comovente. É o meu lugar favorito, sim! Até breve, Lisboa!

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Pequenas histórias 4

Por Fabiana Novello

São Paulo. Shopping. Loja. Calça. Procura número menor. Não acha. Experimenta a maior mesmo e decide comprar. Caixa.
_ Cadastro?
_ Não tenho.
_ Vou fazer rapidinho então. Qual é o CPF?
_ CPF?
_ Isso
_ Tá. É…
_ Faltam 3 números.
_ Hã? Não pode ser. Vou repetir (e olha pra tela do computador pra se certificar que o atendente está preenchendo corretamente)
_ Ainda faltam 3 numeros.
_ Ué, mas não tem mais número.
Olha de novo para a tela. Para, pensa.
_ É o CPF que você quer?
_ Sim
_ Hum. Achei que fosse o RG.
Cadastro feito.
_ Trinta dias pra troca.
Sai. Olha outra calça. É o número menor que procurava. Experimenta. Fila do caixa. Troca.
_ Tem cadastro?

Barcelona. Fim de tarde de um domingo de outubro. Port Vell. Sento num banco. Abro meu pequeno guia e olho o mapa. Adoro guias e mapas. Me localizo. Fecho. Caminho pelo local. Penso em consultar o mapa de novo. Ops. Cadê o guia? Caiu no chão? Olho em volta. Olho na bolsa. Nada. Tiro tudo da bolsa. Nada. Perdi. Paciência. Sigo meu passeio. As horas passam. Uma conversa, um café, uma água, um sorvete. Volto pelo mesmo caminho. Será que deixei no banco? Qual deles era? Me aproximo de um e vejo o guia. Estava ali, quietinho, como se estivesse me esperando. Um sorriso. Sento. Olho o mapa de novo. Outro sorriso. Mais 10 minutos olhando o Mediterrâneo antes de ir embora com o guia na mão.

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Vale do Pati, Bahia, Brasil

Por Talis Mauricio*

Eu poderia começar este texto exagerando em adjetivos, elogios, piruetas literárias… Vou direto ao assunto: o Vale do Pati é considerado, nada mais nada menos, o treeking mais bonito do Brasil, top five do mundo. Fica no coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina, na Bahia. É desses passeios que os turistas tradicionais não costumam fazer, pois o acesso só se dá a pé, exigindo um certo preparo físico, amor à natureza e (o mais difícil) desapego. Afinal, são, no mínimo, três dias no meio do mato, sem televisão, rádio ou sinal de celular. No meu caso, embarquei na aventura de cinco dias, a melhor opção para conhecer pelo menos as principais atrações do Pati.

Fui em dezembro de 2014, época boa, de muito sol, chuva na medida certa. E, como foram muitas as experiências, impossíveis de descrever apenas por aqui, vou falar apenas das três principais. Digo, as três paisagens que mais me surpreenderam. Sim, porque o lugar é simplesmente mágico, encantador. Ou, como costumam chamar os hippies locais, “um portal, meu velho”.

No primeiro dia de trilha, anda-se muito, muito mesmo. Meu grupo (eu, o guia e duas cariocas) decidiu partir do Vale do Capão, o que torna o caminho até o Pati beeeem mais longo. São 22 km de subida e descida! Se vale a pena? Claro, eu faria tudo de novo. Faria porque foi no primeiro dia, duas horas após o início da caminhada, que tive a primeira recompensa. Sempre ouvi falar do paraíso, mas estar no Gerais do Vieira, uma planície de vegetação rasteira, a 800 metros de altitude, foi minha primeira constatação prática.

Gerais do Vieira

Gerais do Vieira

Olhar aquela infinidade, o céu azul sem nuvens, o desenho das montanhas ao longe, sem sombra de dúvidas me fez chegar a uma conclusão: a vida é boa! Inclusive, é de lá que nascem alguns rios que, mais tarde, formam a principal bacia hidrográfica do Estado da Bahia: a bacia do Rio Paraguaçu.

A segunda good vibe se deu no segundo dia de trilha, já no Vale do Pati. Fizemos o Cachoeirão por cima, uma caminhada de mais ou menos 3 horas apenas de ida. Nunca vou esquecer a chegada àquele lugar, a primeira vista que tive do Cânion do Cachoeirão. Sabe aqueles lugares que você para, olha e pensa: “como é que isso aqui se formou?”. E chega à conclusão simplista de que só pode ter sido Deus ou as mãos divinas de algo superior a nós. Eu simplesmente não conseguia ir embora, parar de deslumbrar aquela paisagem.

Vale do Cachoeirão

Vale do Cachoeirão

Infelizmente, não demos a sorte de pegar o Cachoeirão com muita água. Havia apenas duas quedas. Dizem que na época da cheia são mais de 20 cascatas, numa espécie de orquestra hídrica cujo cenário é 10 vezes mais encantador. Nós ainda encaramos o Cachoeirão por baixo, no quarto dia, mas é um esforço que serve mais por curiosidade. Do alto ele é muito mais belo.

A terceira boa coisa é bem simples. Eu fiquei entre falar da Cachoeira do Funil, a vista do Morro do Castelo, da Igrejinha, logo quando se chega ao Pati, entre outros. Mas o que me chamou muito a atenção também foram as casinhas dos nativos, feitas de pau a pique, no pé de montanhas gigantescas.

São poucas, se não me engano há apenas 12 famílias vivendo no Pati. Adormecer e acordar ao lado daqueles paredões, fazendo um forrozinho ou batendo um papo com a galera, é algo que vou levar pro resto da vida.

Casa do Morro

Casa do Morro

A vida é mesmo boa… e bem simples. Nós é que complicamos! Quer saber mais detalhes, visite o Vale do Pati.

*Talis Mauricio é jornalista e tem outro texto no blog: Conhecendo a Resex do Mandira

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De mal de São Paulo

Por Fabiana Novello

Vale do Anhangabaú

Vale do Anhangabaú

Sempre quando chega perto do aniversário de São Paulo eu penso mais sobre a cidade. Já expressei aqui tantas vezes meu encantamento por ela. Mas hoje… Hoje eu olhei São Paulo e só vi seus defeitos, seus desrespeitos. Acho que acordei de mal de São Paulo.

Hoje só vi sua sujeira, seus velhos problemas. São Paulo vive de velhas discussões. Sempre a enchente, a falta de luz, os semáforos quebrados, a falta de moradia, o mato, os buracos, os rios e córregos imundos, a falta de água, o trânsito, o metrô e os ônibus lotados. Nada muda. Ano após ano. Parece que São Paulo não anda. O tempo passa, as pessoas correm e a cidade não evolui.

São Paulo também está cada vez mais abafada, suas árvores estão sumindo. E como é cara! Caríssima! E desigual.

Hoje nem o Vale do Anhangabaú, um dos lugares que mais gosto na cidade, escapou. Olhei pra ele e senti pena. Podia ser tão mais bonito, mais bem cuidado. Devia ser o cartão postal do centro.

A maior cidade do país que se orgulha tanto do seu trabalho, da sua “modernidade”, me pareceu hoje mais miserável do que nunca. Acho que vai demorar pra gente fazer as pazes.

 

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