Veneza e o mistério do cheiro do pão

*Por Luciana Palmieri

 

Veneza

Veneza

Sei que pareço um disco riscado com essa história da minha memória afetiva ser ativada pelo cheiro e que tudo parece uma “invencionice” da minha cabeça, mas desde a primeira vez que escrevi para esse blog sobre o bairro da Pompéia (A memória pelo cheiro) e depois sobre Londres (O cheiro e as lembranças de Londres), eu disse que era  exatamente assim que ela funcionava.

E é o cheiro de pão saindo do forno que mais me lembra Veneza. Pode parecer maluquice, mas La Serenissima, para mim, tem cheiro de pão. Não podia ser melhor. É simples assim.

Espera um pouco! Como assim não é simples? É e não é ao mesmo tempo. Para mim é claro como o dia. E não é porque todas as vezes que você ouvir alguém falar de Veneza serão opiniões diferentes. E nem sempre serão favoráveis. Tudo bem, todos temos o direito de ter nossas opiniões e temos que respeitar àquelas que diferem das nossas.

A minha é a seguinte: Veneza é a cidade mais linda, romântica, perfeita, encantadora, espetacular do mundo. Vocês poderão dizer: você conhece o mundo todo para dizer tal coisa? A resposta será: não. Mas para mim não importa. Veneza é especial e é a mais fantástica cidade que eu já tive o prazer de conhecer. (Se alguém quiser patrocinar uma viagem ao redor do mundo para me fazer mudar de ideia, eu aceito sem reclamar. Só não prometo mudar de opinião…)

Se pararmos para pensar que ela foi erguida há mais de mil anos em cima de uma lagoa e permanece lá, majestosa, serena, com seus monumentos, ruas estreitas, largas avenidas – elas existem em Veneza! – becos encantadores, belezas escondidas. É história ao ar livre. Incrível e única no mundo. Sem falar das outras ilhas igualmente encantadoras que fazem parte da comuna de Veneza, como Murano, Burano, Torcello, entre outras.

Concordo que ela já passou por maus momentos e afundou alguns bons centímetros, mas lá está ela, resistindo aos pessimistas, mostrando ao mundo que o velho pode ser magnífico e simplesmente resistir ao tempo ao aliar-se ao novo, uma vez que a tecnologia avança a passos largos na tentativa bem sucedida de salvar tão importante patrimônio da humanidade.

Mas aonde o cheiro de pão entra nessa história? Pois bem. Muito tempo antes de ir para Veneza pela primeira vez (confesso, não resisti e voltei para ficar mais e voltarei quantas vezes puder) ouvi muitas pessoas dizerem que não gostaram da cidade devido ao mal cheiro dos seus canais. Isso me fez ter um certo receio de conhecê-la durante um tempo, mas logo passou. Quando tive a oportunidade de ir para lá, não pensei muito. Me esqueci desse detalhe e abracei a chance com unhas e dentes. Pude ficar somente um dia e meio, mas a paixão foi à primeira vista. Não conseguia acreditar que estava dormindo num antigo casarão que fora transformado em hotel, ouvindo o sino do Campanário anunciando um novo dia.

Então tive que voltar para acreditar que aquela primeira impressão era verdadeira. E voltei para ficar o tempo necessário para realmente conhecer suas entranhas, seus segredos, seus becos, seus moradores, seus cheiros. E cheguei a triste conclusão de que nunca terei tempo suficiente. Talvez na próxima vida!

Voltei e fiquei em um hotel que não fica exatamente onde todos querem ficar, ao lado da Praça de São Marcos, coração da cidade. Mas ficava na ilha, o que é uma ótima vantagem em termos de locomoção. Também era um casarão, um tanto longe do centro, mas ao lado de uma grande avenida, que em Veneza, dadas as proporções, está mais para um enorme calçadão. Mas lá ele se chama Strada Nuova – uma longa avenida que serpenteia essa parte da cidade ao lado do Grande Canal e é onde parte da vida de Veneza realmente acontece.

A cidade estava cheia de turistas, mas nessa avenida em particular, as coisas aconteciam em um ritmo próprio, com seus moradores indo ao supermercado, crianças entrando e saindo da escola, a feira livre muito animada. E era um prazer enorme andar ali, conhecer cada pedacinho, cada ponte, cada escada – e são muitas – ao ponto de se tornar trivial circular por ali como se já conhecesse aqueles becos minha vida inteira.

Todos os dias bem cedo nós saíamos do hotel e íamos em direção à Strada Nuova para mais um dia de aventuras. Era ali o ponto de partida para todos os lugares que fomos conhecer. Só esqueci de explicar que estava com a minha mãe – turista apaixonada por História e pela Itália tanto ou mais que eu.

No caminho entre o hotel e a “nossa avenida”, passávamos por um lugar que assumi ser uma padaria e, todos os dias, com sua pequena porta dos fundos aberta ao alcance de um aperto de mão, um homem “trabalhava” uma massa, enquanto outras assavam. Imediatamente aquele cheiro me levou para outro lugar. Algo curioso, impossível e apaixonante: era Veneza. Para minha total surpresa. O lugar era o mesmo, mas naquele momento as memórias já não eram mais.

Tentei me lembrar de como isso era possível. E só havia uma explicação. Durante nossa primeira visita, na qual meu pai nos acompanhava, saímos para comer pizza e o cheiro que estava no ar naquela noite era de massa, pão, pizza ou qualquer outra delícia assando. Era um cheiro quente, reconfortante, de casa de vó num fim de tarde. Daqueles que preenchem seus pulmões, mas principalmente os cantinhos da alma. O vento soprava frio, mas quem se importava. O ar era mágico e aconchegante. Naquele momento, meu cérebro gravou essa informação e meses depois, ao passar perto daquela padaria, Veneza já havia se tornado para sempre a cidade que tem cheiro de pão. Só me faltava lembrar!

Hum! Agora mesmo posso sentir no ar a energia vibrante da cidade invadindo meu nariz, enchendo minha alma de amor, calor, saudade, encantamento. Seus sons são doces, seus falatórios agitados, barulhos em forma de pão, assando no ritmo desenfreado nas formas da História e um estonteante passado, tão presente neste momento para mim. Mal posso esperar para vê-la novamente!

*Luciana Palmieri é administradora de empresas e minha amiga de infância

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
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Uma resposta para Veneza e o mistério do cheiro do pão

  1. Não conheço Veneza, mas pude imaginá-la por suas palavras. Acho que ela terá cheiro de pão para mim também. 🙂

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