Conhecendo a Resex do Mandira

Por Talis Maurício*

Sempre ouvi falar de reservas extrativistas, sobre como são importante para o equilíbrio do ecossistema e para as comunidades tradicionais que dela dependem. Embora a vontade de conhecer uma fosse imensa, a verdade é que, morando na cidade, experiências do tipo acabam se tornando algo completamente distante, visto apenas em reportagens, fotos de revistas e em livros escolares. Nos dias 24 e 25 de maio de 2014, finalmente, tive a oportunidade.

Partimos sábado de manhã. O tempo frio, nublado e chuvoso não desanimou a turma. O povo, no entanto, reclamou da viagem, que leva mais de 4 horas em uma Regis Bittencourt cada vez mais sucateada. A rodovia é, notavelmente, uma intrusa indesejada pela Mata Atlântica. Talvez seja esse o motivo de tantos buracos, curvas perigosas, obras inacabadas. É a resposta da natureza à ganância do homem. Eu? Nem notei as mais de 4 horas de viagem. Gosto do silêncio da estrada, de observar a paisagem, os animais, as casinhas construídas no meio do nada…

trilha

trilha para o Sambaqui (antigos “lixões” de comunidades nômades)

Chegamos à Reserva Extrativista do Mandira perto do meio dia. A região é rodeada por montanhas, riachos e árvores gigantescas que nos fazem perder o senso de direção. Ah, e muitos, muitos borrachudos! Pra quem não sabe, o Mandira é uma unidade de conservação federal, cujo decreto é de dezembro de 2002. É uma área de remanescentes quilombolas com mais de 2 mil hectares, onde vivem 16 famílias. Todos os moradores são descendentes de escravos e têm em seu sobrenome o tal “Mandira”, que não tem um significado certo. Além da fauna e flora, o lugar é riquíssimo em história. Relatos de moradores mais antigos apontam que, durante o século 19, a região foi uma antiga fazenda de plantação de arroz. Centenas de escravos foram explorados nas lavouras. Pudemos conhecer as ruínas de um antigo engenho onde os negros trabalhavam e eram açoitados. A energia do local é bem forte, não dá pra negar… e as histórias de assombração contadas por moradores locais, tenebrosas!

Fomos até lá para conhecer o manejo sustentável da ostra crassostrea brasiliana (nome científico), que tornou os mandiranos conhecidos mundialmente. A extração nos mangues passou a se tornar uma atividade econômica no Mandira a partir da década de 60. Mas sempre foi feita de forma predatória e ilegal. Era comum policiais que fiscalizavam a área correrem atrás dos coletores de ostra, chamando-os de bandidos por estarem buscando uma alternativa de vida miserável para suas famílias. Miserável porque as dúzias de ostras extraídas do mangue eram vendidas a centavos para atravessadores, que revendiam para restaurantes chiquérrimos de São Paulo a preços exorbitantes. “Tínhamos vergonha por sermos negros e por sermos coletores de ostra. Por vivermos sujos do barro do mangue e ainda sermos considerados bandidos”, lembra Chico Mandira, morador e liderança local.

Ostra

Ostra

Foi assim até a década de 90, quando a comunidade começou a se organizar e teve o apoio fundamental de órgãos do Estado e da União. Para resumir a história, logo depois foi criada uma associação local, uma cooperativa e, em 2002, o projeto recebeu o reconhecimento da ONU, sendo premiado por ser uma das melhores experiências mundiais de redução da pobreza por meio do uso sustentável da biodiversidade.

A nossa visita ao Mandira incluiu um passeio de barco no mangue para conhecer de perto os tabuleiros onde são feitas as engordas das ostras. A paisagem é deslumbrante! Mas o que chama a atenção mesmo é a organização da comunidade, que respeita as leis e a pegada do projeto. Hoje, várias regras são seguidas à risca. As ostras não podem, por exemplo, ser removidas do mangue durante o período de defeso, entre dezembro e fevereiro, e só podem ser retiradas da raiz do mangue e levadas aos tabuleiros com mais de 5 centímetros de tamanho. Graças a essa visão sustentável do negócio, a produção cresceu, se profissionalizou e virou fonte de renda digna para muitos mandiranos. Atualmente, a dúzia da ostra é vendida em média por 5 reais.

Com isso, a comunidade melhorou seu padrão de vida e, hoje, além de saúde, educação e transporte, passou a ter acesso a bens de consumo como televisão, celular, computador, automóvel, internet.

No mangue

No mangue

Toda essa experiência bacana pode ser conferida por qualquer um. Afinal, a comunidade do Mandira ganha também com o turismo de base. A visita inclui degustação da ostra, banho em uma cachoeira e um almoço caseiro M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O, com direito a farofa de ostra e “uísque caiçara” feito com catáia, planta da região. De quebra, dá pra conhecer no dia seguinte o centro de Cananéia, primeira região povoada do Brasil, palco de diversas batalhas entre colonizadores portugueses e indígenas locais. Outro lugar repleto de história, certamente tema para um outro texto aqui no “Lugares e Histórias”.

Serviço: Reserva Extrativista do Mandira

Onde: Cananéia – Litoral Sul de São Paulo

Contato: Nei Mandira neimandira@yahoo.com.br

*Talis Mauricio é jornalista, repórter da rádio CBN e amante da natureza.

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
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