O dia em que o Atacama chacoalhou sob meus pés

Por Silva Amorim*

Reserva Nacional dos Flamingos, no Salar de Atacama.

Reserva Nacional dos Flamingos, no Salar de Atacama.

Eu estava lá. 1º de abril de 2014, quase nove horas da noite. Faminta, esperava um filé com purê verde — que já não me lembro do que era — no restaurante do meu hotel em San Pedro de Atacama. Era a minha quarta noite por lá e, pela primeira vez, havia decidido jantar no hotel porque acordaria muito cedo no dia seguinte, às 4h30 da manhã, para um passeio. As mesas estavam cheias.

Papo vai, papo vem, enquanto os pratos não chegavam, Luiz, meu namorado, muda o rumo da conversa e me pergunta se eu tinha sentido a mesa se movimentar. Eu pensei: não. Mas antes mesmo que terminasse de responder, senti a minha cadeira se mexer. Olhei para o copo de suco de laranja em cima da mesa e pensei comigo: não estou bêbada. Então, por que o chão está tremendo?

Luiz, que exatos 20 anos antes, em abril de 1994, havia passado pelo seu primeiro terremoto em Las Vegas (EUA), falou: é um terremoto. Eu, que nunca havia estado numa situação sequer parecida, só percebi que, sim, ele estava com a razão quando as pessoas nas mesas começaram a se entreolhar.

No começo foi muito sutil. Pratos, copos e talheres continuavam firmes e fortes sobre as tolhas. Mas, quando olhei para cima, os lustres, lindos, rústicos e bastante grandes, estavam balançando freneticamente.

—Temos que ir para um lugar aberto —decidiu Luiz.

Mais tarde, entendi que essa é a primeira recomendação em caso de terremotos, para evitar que algo caia sobre sua cabeça em caso de desabamento. Quando tentei levantar da cadeira em direção à porta envidraçada que dava acesso à área externa da piscina —a nossa mesa era a mais próxima da saída — senti que não conseguia ficar em pé. Logo, todos saíram, cambaleando como eu.

San Pedro de Atacama fica no norte do Chile, a quase 500 quilômetros de distância da cidade de Iquique, onde foi o epicentro do sismo naquela terça-feira, Dia da Mentira. O tremor atingiu mais de 8 graus de magnitude na escala Richter, mas o que senti no Atacama foi algo menor, estimado entre 5 e 6. Pode acreditar, já foi suficiente para não me deixar em pé. O caminho de pouco metros entre a mesa e a área externa do restaurante eu percorri me apoiando no que tinha pela frente. Do lado de fora, me segurei em um pilar e dali só soltei quando os tremores pararam. Muitos se juntaram a mim em segundos. Acho que ficamos ali uns 10 minutos ou um pouco mais. O tremor não foi constante. Ele ia e vinha. Ora mais fraco, ora mais forte.

Uma das atendentes segurou no meu braço para se manter em pé. A primeira coisa que me veio à cabeça foi perguntar a ela se aquilo era normal em San Pedro. Com a voz um pouco ofegante da corrida, a chilena disse que nunca tinha visto algo tão forte na cidade.

Felizmente, nada de pior aconteceu. As estruturas do hotel ficaram intactas, as mesas continuaram em ordem e, aos poucos, quando os tremores cessaram, fomos retornando para dentro. Como todos, retomamos o jantar. Mas o clima era de apreensão. Uma outra atendente estava aflita. Quando veio com meu filé, eu perguntei se ela estava bem e a moça respondeu que tinha um filho pequeno em casa sozinho e que estava preocupada com o que pudesse ter acontecido a ele.

Não consegui dormir direito naquela noite pensando que um novo tremor pudesse acontecer a qualquer momento e o teto do chalé desabar sobre mim. A única fonte de notícias era a internet. Não tinha televisão no quarto. Buscando notícias é que fiquei sabendo que há dias o norte do Chile estava sob ameaça de tsunami e terremoto. Nos dias seguintes, tremores se repetiram, mas muito tarde da noite e eu já estava dormindo. Não senti nada. Aliás, só fiquei sabendo deles porque encontrei em um dos passeios no deserto uma carioca que relatou que não dormia tranquilamente há dias por causa dos sismos. Ela havia improvisado no quarto um “detector de terremotos” —colares pendurados e garrafas com água para que pudesse perceber qualquer movimento estranho.

Só sei que tive que mudar a minha programação e desistir do passeio que eu mais queria fazer: subir o vulcão Láscar num trekking que dura o dia todo. Ele é um dos vulcões ativos do Chile e a última erupção foi em 2006. Grupos saem quase diariamente de San Pedro rumo ao cume do gigante com o acompanhamento de guias e montanhistas. Infelizmente, não foi dessa vez. Mas, de resto, foi uma viagem incrível e inesquecível.

*Silva Amorim é jornalista, faz viagens incríveis e tem o blog Caminhos: relatos das minhas viagens pelo mundo

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
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Uma resposta para O dia em que o Atacama chacoalhou sob meus pés

  1. Que medo! Quando fui a Santiago, tive medo de pegar terremotos. Lá dizem que há pequenos tremores diariamente. Eu não senti nada.

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