O cheiro e as lembranças de Londres

Por Luciana Palmieri*

(Para o Eduardo, meu primo, que acabou de embarcar em sua primeira viagem solo para fazer intercâmbio em Londres e, é claro, me servindo de inspiração e trazendo boas memórias)

Rio Tâmisa, Parlamento e Big Ben ao entardecer

Rio Tâmisa, Parlamento e Big Ben ao entardecer

Lá se vão 17 anos desde que senti o cheiro de Londres pela última vez. E parece que foi agora mesmo. Não disse? Acabei de sentir! Explico: quem ler meu texto anterior (A memória pelo cheiro) publicado neste blog muitos meses atrás vai ver que os lugares provocam em mim uma reação surpreendente entre a memória que guardo deles e seus cheiros. E daí surgem as histórias.

Em julho de 1996, fui parar em Londres meio sem querer para fazer intercâmbio com minhas três primas. Foi umas das mais extraordinárias experiências da minha vida.

Os trinta dias escorreram pelos meus dedos como água. Não podia acreditar que a viagem já estava acabando. O dia era de despedida. Da escola, da cidade e dos amigos recém-conquistados. E não poderia ter acontecido de forma mais cinematográfica. O cenário: estação de trem, final de tarde. Os personagens: estudantes de diversas partes do Brasil. O enredo: momento de dizer adeus.

A cena que se seguiu, nem preciso descrever, qualquer um pode imaginar: abraços longos e apertados, palavras de carinho, choros, promessas. Porém eu “percebi” aquela cena de outra maneira. Ou simplesmente escolhi lembrar-me de outro jeito, para doer menos. E é assim que ficou gravada na minha memória:

Estávamos todos em um parque, com muitas árvores, forrado de flores do campo, uma brisa suave no rosto soprando calma, trazendo o frescor de um pequeno riacho que serpenteava o gramado, mais parecendo um fio d’água. O perfume das flores confundia-se com o cheiro dos trilhos (?), o vai-e-vem dos passos apressados, o som do vozerio, o cheiro abafado das tardes de verão. Nós caminhávamos sobre a relva, trazendo o aroma da cor verde ao encontro do nariz. Alguns de mãos dadas, alguns com os braços entrelaçados, olhando-nos sem pronunciar palavra, deixando apenas o silêncio fazer as despedidas.

À medida que andávamos, o fio d’água foi encorpando, de riacho logo se tornara rio com suas margens se afastando a cada passo, até que não fosse mais possível manter nossas mãos unidas. A distância foi aumentando, nossas silhuetas mais borradas, as vozes longes e de repente a separação não tinha mais volta.

Eu estava sozinha quando fui embora, não me lembro mais por que. Deixei a estação arrasada. Tinha que arrumar as malas, mas não antes de buscar as últimas fotos que haviam sido reveladas. (Por acaso eu já disse que isso aconteceu há 17 anos?) Eu sabia bem onde era a loja, pois já tinha ido lá várias vezes.

Uma leve chuva de verão molhou rapidamente o asfalto e as árvores do meu caminho. Nem cheguei a abrir o guarda-chuva. A dor da despedida ainda estava tão presente que eu andei por aquelas ruas alheia a tudo que estava acontecendo, como se tudo aquilo fosse familiar e estranho ao mesmo tempo. Vários minutos se passaram até me dar conta que estava perdida. Pelo menos uns cinco quarteirões além do meu destino. Será que me perdi realmente? Ou me encontrei?

O cheiro de Londres é “verde e cinza”. Seu aroma é o das ruas cheias de árvores molhadas misturado com o cheiro do concreto, dos imigrantes, das calçadas; é a fragrância doce do sol refletido nas poças no meio-fio, o perfume do ar fresco, dos turistas, dos monumentos – e dos ingleses, por que não? – ele sempre vai me lembrar o verão que estive lá.

Londres, cidade mágica que a chuva traz à memória sempre que dá a “água” da sua graça.

*Luciana Palmieri é administradora de empresas e minha amiga de infância

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
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9 respostas para O cheiro e as lembranças de Londres

  1. Que sensibilidade, que delícia de texto!

  2. Lu Palmieri disse:

    Obrigada de novo!

  3. Luciana Novello disse:

    Lindo texto!

  4. Leda disse:

    Lindo mesmo! Poético, parabéns!

  5. Pingback: Veneza e o mistério do cheiro do pão | Lugares e histórias

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