Chiclayo, a cidade marrom

Por Mayra Siqueira*

Táxi de Chiclayo, Peru

Táxi de Chiclayo, Peru

– Pollo fresco!

Ouve-se entre o barulho de escapamentos, freadas e motores que agitam as perturbadas ruas de Chiclayo, litoral peruano.

Em uma banqueta improvisada na calçada, o vendedor de rosto sujo limpa o suor da testa com as mãos úmidas que tocavam o frango fresco que tentava vender. Na rua. Sem vidro, proteção, refrigeração. 

A camada marrom de pó que cobre as folhas das árvores também dá trabalho para as donas de casa, que pacientemente varrem suas calçadas como se a espessa e persistente terra não fosse retornar no dia seguinte. Uma vez a cada dois meses, dizem os autóctones, vem a sagrada chuva para lavar a alma – e calçadas, muros e folhas de árvores. Todos marrons. E a reserva é necessária: o céu só será benfazejo novamente dali a dois, quiçá três meses.

A seca peruana não é novidade. Antes Chiclayo que Lima!, bradam os locais. Na capital não chove de verdade há três décadas, como eles explicam.

Em pequenos triciclos com dois assentos acoplados como carruagens, os populares táxis locais transportam a população por alguns trocados. Andar de carro em Chiclayo pode ser traumatizante: quase não há semáforos e a regra do “embiquei meu carro primeiro” é respeitada por todos. No cruzamento em que não existe preferencial, uma gestante atravessa sem se dar ao trabalho de olhar para os lados. E, ainda sem olhar, ela chega ao lado oposto. Não parou. Nem os carros. E, do caos, a ordem. Num mundo sem leis automotivas, os acidentes não acontecem. E ninguém freia. E nem Freud explica.

Os táxis custam cerca de dez vezes menos que uma refeição. Os preços vão por consideração da distância percorrida e do horário da corrida, como em boa parte da América Latina. 

Em Chiclayo, higiene, ordem, limpeza e conforto não são lá conceitos muito difundidos. Debaixo das camadas de poeiras que cobrem suas incompreensíveis e intransitáveis ruas, a cerca de 20km do (também marrom) Pacífico, dos intoxicados frangos de banquetas na calçada… o sorriso enrugado e que esconde os olhos.

Por trás do marrom, o colorido de um dos mais simpáticos, acolhedores e solícitos povos latino-americanos. Cores que se camuflam no caos, mas que escapam para espalhar alegria com mais frequência que as chuvas ocasionais que lavam a alma dos peruanos.

E entre os dentes falhos e muitas vezes ausentes à mostra, é possível distinguir as palavras que se misturam aos roncos dos motores, buzinas e escapamentos:

– Frango fresco, dona, fresquinho! Vai levar?

*Mayra Siqueira é jornalista, repórter da equipe de esporte da rádio CBN

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
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3 respostas para Chiclayo, a cidade marrom

  1. Eu adorei sua história, Mayra. Viva a América Latina que tem lugares como este!

  2. Antonio Siqueira disse:

    Valeu garota!! Muito bom!

  3. Celso Batistucci disse:

    estive lá a semana passada, realmente é tudo isso que ela diz mesmo, além de Ceviche, prato típico de peixe cru, vendido como cachorro quente, em qualquer esquina..

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