A lição que a leoa me deu

Por Lucas Parolin*

Eu e a Bruna, minha irmã, sempre fomos muito próximos. Quer dizer, até eu resolver ir estudar nos Estados Unidos. Morando longe assim, ficou difícil ter a mesma proximidade de sempre.  Mas “bora” pra África do Sul de qualquer maneira, com a família.

Na cidade de Port Elizabeth, surgiu a oportunidade de visitar uma reserva de leões. Chegando lá, a oportunidade de entrar na jaula para passar a mão neles. Ah, e o medo?

Eram uns bichões enormes. Os adestradores nos prometiam (e garantiam!) que os leões eram mansos, amigáveis e que estavam acostumados com o contato humano. Que até abraçavam. E eu, pensando, “um abraço desses ‘monstrinhos’ aí e foi-se minha cabeça, meu braço, minha perna…” Mas a Bruna nem pestanejou. Quis ir imediatamente.

Olhando a coragem dela, lembrei na hora de outras vezes que ela pegava na minha mão e falava “vem, Lucas, vem.” Lá fomos nós dois pra dentro da jaula.

Silêncio e apreensão eram o nome do jogo. Eu tinha a impressão que, se mexesse um músculo a mais, os leões iriam pular em mim na hora. A Bruna, não. Ia com convicção. “Eu vou passar a mão no fofo daquele leão.”

Chegamos perto deles. Enormes. Muito, muito maiores do que aparentavam ser de fora da jaula. Tínhamos que agachar para passar a mão na leoa, que estava deitada. Minhas pernas não cediam. Só ficavam ali, observando e temendo a rainha das selvas.

A Bruna, não. Abaixou na hora e meteu a mão na barriga do animal pra acariciar seu pelo branco. A leoa, que eu antes achava que ia morder a mão da minha irmã pela sua insolência, agia como se nada estivesse acontecendo.

Agora, era minha vez. Abaixei e… de repente estava eu também fazendo carinho numa leoa. E ela adorando, roncando como um gatinho! Eu olhei em minha volta e vi mais uns quatro leões ali, deitados, aproveitando o calor e o sol que fazia naquele dia. E eu, minha irmã e minha adestradora no meio.

Mas, por mais impressionante que esta cena possa ser, não era o que eu mais prestava atenção. Porque, naquele momento, a Bruna colocou sua cabeça no meu ombro. E aquele gesto, pra mim, foi o bastante. Ganhei o dia.

Lucas, a irmã e os leões. África do Sul.

Lucas, a irmã e os leões. África do Sul.

Me senti até bobo de achar que não era mais próximo de minha única irmã por não estar fisicamente perto dela durante a maior parte do ano. Foi aquela leoa, que se deixava acariciar em volta de seus irmãos e irmãs, que me mostrou que amor de irmão atravessa continentes e cria coragem pra ficar ao lado de um felino de 120kg. E ainda passar a mão em sua barriga.

*Lucas Parolin ( @Lucas_Parolin ) é jornalista e mora em Boston

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
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Uma resposta para A lição que a leoa me deu

  1. Doris disse:

    Lucas, não tem nada igual ao amor entre irmãos. Não há distância, não há nada, ‘só’ o amor! Lindo seu texto!! Amei! E juro, enquanto eu lia, eu via as carinhas da Bruna… 🙂 Adoro essa menina!!

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