Um reduto grená

Por Gabriela Gonçalves*

Já não tenho mais o vídeo. Como registro, fica a primeira foto (fora de foco) que fiz dentro da Javari, da arquibancada.

Não nasci na Mooca, mas desde os meus quatro anos vivo no bairro. Posso dizer que ao entrar aqui, qualquer visitante conhecerá uma parte diferente de São Paulo. A Mooca contagia, é receptiva e a cada esquina há uma história interligada ao desenvolvimento de São Paulo. Aqui, falo sobre o lugar mais querido do bairro.

Entrei pela primeira vez na rua Javari onze anos depois de começar a morar na Mooca. Se foi tarde? Foi, mas foi bom. Filha de um corinthiano e uma palmeirense, ao contrário do que geralmente acontece, optei pelo Juventus como meu primeiro e único time.

Um trabalho de colégio me fez percorrer a Mooca. Decidi contar a história do bairro em um vídeo, em que apareceria em frente ao Cotonifício Crespi – a antiga tecelagem dos funcionários que fundaram o time – e ao estádio Conde Rodolfo Crespi, que fica ao lado. Cheguei bem perto do portão grená, que serve para a entrada de carros, e percebi que ele estava aberto. Era dia de semana, não havia treino. A vontade de conhecer o famoso estádio do Moleque Travesso era maior. Então, entrei para fazer o registro.

Bem diferente das estruturas dos outros estádios, o Conde Rodolfo Crespi, mais conhecido como Javari, é de uma simplicidade imensa. Tanto que ele só não é imperceptível para quem passa pela rua dos Trilhos por causa do escudo, uma letra “jota” pintada no muro. O estacionamento fica a poucos metros da arquibancada, que por sua vez, só é separada por uma grade do campo. É tão pequeno que te faz sentir sentado a respiração de cada jogador. Um senhor logo me viu e perguntou o que fazia lá. Disse que era estudante, queria retratar a Javari e ele me deixou à vontade para caminhar e até pisar no gramado.

O gramado não é dos melhores, mas a visão é incrível. Olhar as arquibancadas da torcida geral e as cadeiras numeradas me fizeram compreender o espírito bairrista. Temos um estádio aconchegante em uma região com sotaque próprio e que guarda um pedaço da história do futebol paulista, onde Pelé diz ter feito o gol mais bonito de sua carreira. Talvez não só mais bonito do que olhar para o placar, ainda manual, nas cores do time ou para os moradores das casas vizinhas devolvendo as bolas chutadas para fora do campo.

São 88 anos desde a construção da Javari. Mais uma de suas peculiaridades é o fato de não possuir iluminação, portanto, os jogos só podem ser realizados em período diurno. A torcida é composta de sentimento: são senhores que viram os tempos de glória do Juve, jovens que apreciam a tradição do time de bairro, e crianças que se divertem com a proximidade do campo. Os cantos são entoados e as faixas esticadas sobre as grades durante os 90 minutos.

O Juventus passou para a segunda divisão do Campeonato Paulista, a A2. Seu último título conquistado vem da Copa Paulista de 2007, quando venceu o Linense com um gol marcado no último minuto. Não consegui ver a partida do estádio, mas meu pai tem a sorte de ter a vista da Javari da janela do quarto. E foi dela que vi o gol e o estádio lotado comemorando a vitória.

Guardo na memória um clássico em especial: uma quarta-feira à tarde em que o meu grená enfrentou a rival Portuguesa, numa disputa mais marcada pelos xingamentos entre os torcedores da terceira idade do que pela própria partida.

No intervalo, a torcida toda vai para o corredor debaixo da numerada, onde o tradicional cannoli, um doce de origem italiana, é vendido em uma fila imensa que vai até o começo do segundo tempo. No final da partida, a imagem do público saindo e voltando para casa a pé, reforça a regionalidade do estádio.

O time não é mais glorioso, há um bom tempo esperamos pelo retorno do velho Juve, com jogadores que sigam com a tradição e mantenham o ar retrô do futebol de bairro. De qualquer forma, não tem nada que defina mais a Mooca do que a emoção e a paixão transmitidas ao passar pelos portões da Javari. 

*Gabriela Gonçalves é estudante de Jornalismo.

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
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2 respostas para Um reduto grená

  1. Não conheço a Javari, a conheci agora nesse belo texto da Gabriela. A Mooca é mesmo um bairro diferente de São Paulo e tem até um hino.

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