Londres (Crônica)

Por Leandro Mota*

O título da reportagem chamava mais a atenção do que o anúncio vendendo iPhone 4S por £29. Sim, vin-te-e-no-ve-li-bras! Uma pechincha! Talvez, sabendo da concorrência na mesma página, o jornalista resolveu abrir o texto com uma frase de impacto: “o motorista de hoje é o fumante de ontem”. Como assim? A curiosidade pela tese do cara foi maior do que a indignação que senti ao lembrar do preço pago pelo mesmo aparelho no Brasil. Pelo MESMO aparelho.

Não aguentava mais andar de metrô. O sol brilhava lá em cima e eu mofava cá embaixo. Então escolhi atravessar a cidade de bicicleta. A ideia era fazer uma reportagem sobre o sistema de transporte de Londres. Foram quase vinte quilômetros de pedaladas. Eu e a moça do GPS. Um casal perfeito.

Ironicamente, o texto do cara agradecia à prefeitura por instituir as faixas de trânsito olímpicas. Apenas carros oficiais poderiam utilizá-las durante os Jogos. No primeiro dia, o índice de congestionamento bateu recorde. No segundo, todo mundo optou pelo transporte público. As ruas esvaziaram-se de tal modo que as vias exclusivas perderam utilidade. Sem querer, o atirador acertou o alvo.

Como bom paulistano, sempre levo um guarda-chuva na mochila. Pensei em utilizá-lo assim que a primeira gota tocou a minha testa. Mas havia um problema: sou incapaz de andar de bicicleta com apenas uma mão. Incrivelmente, antes mesmo da camiseta começar a colar no corpo, eu já agradecia São Pedro. Me senti como Gene Kelly rindo das nuvens. Desisti da ideia de me proteger da água que caía do céu. Let the stormy clouds chase.

Após “elogiar” as autoridades londrinas, o cara começou a explicar a tese do novo fumante. Dizia ter vergonha de contar aos amigos que vai trabalhar de carro, assim como se sentia repreendido na mesa do bar cada vez que acendia um cigarro. “As pessoas não entendem por que eu ainda insisto em gastar tanto dinheiro para manter uma coisa tão inútil para uma cidade como Londres. Sim, estou falando do meu automóvel”.

A chuva terminou bem antes do que eu gostaria. Para falar a verdade, a minha companheira nem se molhou. Ficou protegida dentro do bolso da bermuda. Coitada… Nem pôde ver o pôr-do-sol diante do rio Tâmisa. Fiquei imaginando quantas vezes ignorei o fim de tarde em São Paulo procurando um caminho alternativo para (tentar) fugir do congestionamento. Lembrei do primeiro dia de autoescola, na aula teórica, quando o professor mostrou um vídeo do Pateta. O gentil e educado personagem da Disney se transformava em um monstro ao dar a partida no carro. Eu sou um pateta?

Definitivamente, o cara estava decidido a se livrar do carro. Faltava coragem. “E se eu precisar ir ao hospital no meio da madrugada?”. Tentou lembrar rapidamente de quantos amigos tinham automóvel particular para poder socorrê-lo em caso de emergência. Não chegavam a cinco. “Táxi? É muito caro. Ok, menos caro do que gasolina, seguro, pedágio, imposto, manutenção, etc”.

Levei um susto quando olhei no relógio. Já eram quatro da manhã. Eu e meu colega passamos a última noite em solo europeu bebendo em um bar de Paris. Pagamos a conta e… cadê meu dinheiro? Sim, gastei (bebi) mais do que deveria. “Será que o táxi aceita cartão de crédito?”. Na dúvida, voltamos para o hotel a pé. Sete quilômetros. A pé. De madrugada. É o tipo de coisa que você só faz em lugares onde não se tem ideia dos perigos que está correndo.

O texto trazia um breve histórico sobre o desenvolvimento de Londres. A cidade não foi projetada para carros. As ruas são estreitas. O centro financeiro quase não possuiu estacionamentos. Não há espaço para transporte individual. A maioria das casas não tem garagem. Diante de tantas dificuldades, só uma coisa explicava o fato dos britânicos comprarem automóveis durante grande parte do século passado: status. “Acho que você já ouviu esta palavrinha em discussões sobre cigarro”.

Confesso que senti ciúmes da moça do GPS. Desta vez, ela era a Dona Flor guiando os dois maridos pela madrugada parisiense. A caminhada durou aproximadamente uma hora e vinte minutos. Foi uma das experiências mais incríveis da viagem. A cidade dormia bem diante dos meus olhos. Os semáforos abriam e fechavam sem que nenhum carro passasse. As pombas mexiam no lixo sem serem incomodadas. O vento era ouvido. A folha seca voava sem encontrar obstáculos. Os manequins das lojas se exibiam para… ninguém. Os postes iluminavam bancos vazios. Os mendigos não acordavam nem para pedir dinheiro aos dois turistas (e à Dona Flor). Ainda bem que eu não tinha dinheiro para o táxi.

No final do texto, o cara revela: não ia vender o automóvel. Gostava dele. Havia uma relação de cumplicidade. Algo que nenhum “preconceituoso” iria entender, assim como ele não compreendia os motivos do fumante. Eu odeio cigarro. Amo dirigir. Continuarei com o meu carrinho tão útil em uma cidade como São Paulo. Mas prometo olhar mais pela janela, abandonar o ar condicionado, respeitar os pedestres e, de vez em quando, ir a pé ao mercado da esquina. Desde que ele venda iPhone 5 por £29, claro.

*Leandro Mota é jornalista, repórter do Esporte da rádio CBN (e escritor!)

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
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3 respostas para Londres (Crônica)

  1. SERGIO H. YARIWAKE disse:

    Adorável, e a crônica do trêm para o aeroporto continua povoando minha imaginação!

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