Mais ou menos Roma

Por Leda Letra*

Escultura em Piazza Navona, Roma.

Semana passada assisti ao novo filme do Woody Allen: Para Roma, com Amor. Tinha muita expectativa porque eu pisei em Roma pela primeira vez no segundo dia de gravação do filme. Mas não vou escrever sobre ele. Mas sobre Roma.

Naquela quarta-feira, tive um sonho lindo, real. Eu passeava pela Piazza Navona, ia parar na Fontana di Trevi e de repente, via o Coliseu. Abri os olhos e fiquei preenchida: eu estava no quarto do hotel em Roma e tinha vivenciado tudo o que sonhei de verdade, naquela mesma manhã.

Visitei Roma num julho quente de 2011. Nosso boutique hotel ficava numa travessinha de paralelepípedo. A entrada, escondida, era ao lado de uma porta linda de um antigo teatro. Tínhamos que subir uma escadaria. Embaixo, uma sorveteria. Chegamos cedo, vindos da Sicília, mas loucos para descobrir Roma.

Andando, chegamos rápido à Piazza Navona. Queria entender como aquelas esculturas perfeitas e gigantes, em mármore, puderam ser feitas há tanto tempo. O calor, insuportável, era amenizado graças às inúmeras bicas de água (gelada) que encontrávamos no caminho.

O que é isso? Vamos ver no mapa… Sim, é o Pantheon!!! Uau… pausa para um sorvete de pistache.

Continuamos caminhando. Parei por vários minutos para admirar uma torre de pedra, que era inteirinha esculpida. Roma estava me preenchendo de amor, de arte, de cultura, de beleza.

Seguimos em meio ao trânsito caótico, gente gritando e o calor. De repente… uma piscina de um azul intenso, o som belo da água a jorrar da fonte… eu estava ali, na Fontana di Trevi!!! Fiquei emocionada. Era bem mais bonita do que eu imaginava… joguei uma moedinha e fiz meus pedidos.

E olha no mapa de novo, pede ajuda, pergunta, anda, anda. As ruínas do Fórum Romano. Impossível ficar indiferente. Eu estava ali, onde os imperadores tinham pisado.

Sinto que vou desmaiar. Sento, tomo um Gatorade. No chão, um jornal todo pisoteado, com a Penélope Cruz na capa, uma das estrelas do filme.

Olho para aquela avenida enorme. Lá no fundo, o Coliseu. Como pode a história ter parado no tempo e ainda sobreviver de forma tão mágica, enquanto a cidade, já urbanizada, corre a sua volta?

Chego ao Coliseu, sem palavras. Após pausa para o almoço, voltamos ao nosso pequeno e aconchegante hotel, como se fossemos dois romanos que moravam naquela travessa. Naquela tarde, sonhei.

Ainda tive tempo para comer massa, pizza, tomar birra, pedir due cornetti e due cappuccini (e aprender que no plural, as palavras terminam com “i”),  ir à Capela Sistina e me decepcionar com A Criação de Adão, de discutir no Vaticano, de fazer as pazes tomando mais um gelatto, de ficar admirando a cidade nos degraus da Praça de Espanha, de caminhar à beira do rio Tibre, de me perder (de verdade) na cidade, de me encontrar, de me apaixonar.

Quase um ano depois, ainda sinto dificuldade em explicar como Roma mexeu comigo. A ligação foi muito forte. Acho que um dia ainda eu volto lá. Enquanto isso, só me resta este texto mais ou menos sobre Roma. Mais ou menos, como o filme do Woody Allen.

*Leda Letra é jornalista

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
Esse post foi publicado em Cidades e marcado , , . Guardar link permanente.

5 respostas para Mais ou menos Roma

  1. Luciana Palmieri disse:

    Lindo! Roma provoca um efeito na gente difícil de explicar. Quando vi a Fontana de Trevi pela primeira vez, abracei minha mãe, que estava comigo,e disse, com os olhos cheio d’água: “Mãe, nós estamos aqui mesmo? Não é sonho?” Gostaria de ter tido mais tempo nesta cidade mágica!

  2. keila disse:

    Mais ou menos demais o filme mesmo. Atualizando a leitura, me deparo com esse relato que me faz ter vontade de fazer as pazes com Roma. Me emocionei com os monumentos e praças, mas fui muito maltratada pelos romanos… saí de lá chorando, brigando, sozinha na porta do aeroporto fechado numa madrugada gelada e fui acolhida por Paris numa linda manhã de sol no inverno.

  3. Luciana Palmieri disse:

    Ai que vontade de mais Roma !!! O texto já tem alguns anos, mas Roma é eterna, não é mesmo? Estive lá no mesmo ano, só que em um setembro tão quente quanto o seu julho. Um dia e meio. E nada mais. Saí de lá incrédula, aflita e decepcionada! Não consegui ver tudo que queria! Nem metade! Nem um quarto! Mas pedi à fonte poder voltar e voltar…quantas vezes forem necessárias… Pra variar, adorei o texto, Leda! Parabéns!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s