A ópera

Por Leda Letra*

Fachada do Metropolitan Opera House.

20h40. Noite de sábado. 20 minutos para começar o espetáculo. Vento gelado em plena primavera. Ele de terno, eu de vestido e blazer. Anos vivendo em Nova York e pela primeira vez íamos a uma ópera. Tiramos fotos nossas em frente ao Lincoln Center. Sting passa ao meu lado. Ele também ia à ópera. Entramos. A escadaria branca, os lustres brilhantes que lembram estrelas no céu, as paredes de veludo vermelho. Pessoas velhas, jovens, bem vestidas ou nem tanto. Além de Sting, haveria ali mais algum rosto conhecido? Talvez algum vencedor do Nobel, algum escritor importante, algum diretor de cinema? Talvez. Poderiam criar um aplicativo para smartphones. Você fotografa o rosto e ele já te informa quem é aquela pessoa.

Nunca tínhamos ido a uma ópera – não por falta de interesse, mas por sempre priorizarmos outras coisas. Os ingressos, que custam entre $95 e $650, foram presente de um casal de amigos. Nossos lugares eram ótimos, em frente à orquestra. Passo os olhos rapidamente no programa de Das Rheingold, de Richard Wagner. Queria entender o que estava por vir. A ópera alemã foi apresentada pela primeira vez em 1869. Na frente de cada assento, descubro um pequeno visor eletrônico onde seriam passadas as legendas em inglês.

21h. Os lustres sobem ao teto dourado. A orquestra começa a tocar. Silêncio. Sereias cantam; o homem pobre renuncia ao amor para ter o ouro. Por que não podemos ter tudo ao mesmo tempo? Chegam os deuses. Chegam os gigantes. Em que momento teriam decidido cantar óperas? Falariam alemão fluentemente? Aquelas vozes encantadoras cantam o orgulho, cantam a honra, cantam o amor, cantam sobre os mais fortes e fracos, cantam sobre o ouro. O anel de ouro. Meus olhos e ouvidos encantados, a mente sempre ativa. Quantas pessoas estariam naquele teatro de cinco andares? Mil? Quantas vidas, quantas histórias e trajetórias distintas. Mas naquela noite nossas rotinas se cruzaram e estavámos todos ali, por aquelas duas horas e meia, apreciando a mesma arte.

As lindas vozes continuam. Cantam a morte, cantam o orgulho, cantam a liberdade. Um céu estrelado ilumina o palco. As cortinas fecham. A orquestra para. Muitos minutos de aplausos. Aplaudimos, em pé. Aos poucos, esvaziamos aquele lindo teatro. E seguimos, cada um ao encontro de sua própria trajetória.

*Leda Letra é jornalista

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
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3 respostas para A ópera

  1. Renata disse:

    lindo texto da letrinha.

  2. Karina Lima disse:

    Como sempre, adoro ler o que a Letrinha escreve. Conversa corrida, solta, despretenciosa, daquela que a gente gosta de escutar na mesa do boteco, ou numa janela de casa. Parabéns! 🙂

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