Viajar é andar milhas e milhas para ver o que está tão perto

Por Raphael Prado*

Trem da Morte - Bolívia

Tem gente que viaja para conhecer lugares novos. Eu viajo para conhecer os lugares de sempre. Para conhecer minha casa, minha cidade, meu país. Viajo para conhecer a mim mesmo. Não há viagem que eu faça em que eu não compare tudo, desde o trem desconfortável que atravessa a selva boliviana ao lixo pelas calçadas de Nova York ao que está – ou não está – no meu país. Da tolerância às diferenças ao costume da gorjeta que determina como será seu atendimento no mesmo bar ou restaurante, todos esses detalhes revelam as novidades da cultura local. Mas mais do que isso: permitem comparar com aquela cultura que é nossa, que está enraizada nos nossos gestos, na nossa postura, no nosso sotaque.

Andando pelas ruas de Nova York, onde estou agora, o que não falta é diversidade. Línguas de diferentes partes do mundo se trombam pelas ruas de Manhattan, madames de olhos azuis em compras pela 5ª Avenida convivem com árabes vendendo falafel na esquina. Mas há coisas que não mudam: o segurança da loja da madame de olhos azuis é negro, a vendedora é latina, o taxista que a levará de volta para o hotel é indiano – isso, claro, na maioria das vezes. E, por mais que tanta gente tente me convencer do contrário, é algo que ainda está aquém da minha vontade: não consigo celebrar essa desigualdade como uma forma de tolerância.

Minha primeira viagem internacional foi um mochilão pela América Latina, na companhia de um grande amigo, também jornalista, Paulo Darcie – à época ainda éramos universitários. Meu interesse pelo continente, que sempre foi grande, centuplicou depois que Eduardo Galeano acendeu em mim a paixão pelos nossos vizinhos com “As veias abertas da América Latina”. Aprendi espanhol para vencer a barreira linguística e, de certa forma, a arrogância de ser o único país do continente a falar português. Aliás, aqui, dois parênteses.

1) Já vi muita gente reclamar de que o brasileiro faz de tudo para compreender o estrangeiro quando está no país: gesto, mímica, fala devagar (às vezes alto), tudo para deixar o visitante à vontade. Por outro lado, quando o brasileiro viaja, é tratado com desdém quando não fala a língua do estrangeiro. Embora isso seja verdade em alguns casos, a pergunta que cabe é: você fala espanhol? “Ah, mas dá para se virar com portunhol”. Dá. Mas será que você não está sendo tão arrogante quanto o europeu ou norte-americano que não se dão ao trabalho de aprender outra língua porque “ah, dá pra se virar com inglês, todo mundo fala…”?

2) Viajar pela América Latina me deu incrível vergonha de ser brasileiro. Em vários momentos. Primeiro por ter enterrado de maneira tão profunda as raízes do nosso povo, como bem queriam os conquistadores. Em outros países, seja na tradição da folha de coca ou na vestimenta das cholas pelas ruas dos Andes, ainda resiste uma cultura para qual o povo brasileiro virou as costas – e continua virando quando aceita varrer do mapa povos que “entravam o desenvolvimento”. O segundo motivo da vergonha foi conhecer dezenas de companheiros de viagem, como um uruguaio que se hospedou conosco no mesmo albergue, elogiando o samba – mas não de modo genérico: elogiando o samba de Pixinguinha, o de Vinicius de Moraes -, e os livros de Jorge Amado ou Machado de Assis. E enquanto descrevia o que conhecia da nossa cultura, eu me perguntava, em silêncio: o que sabemos do Uruguai? Quais autores conhecemos? Músicos?

Certamente essa era uma ignorância minha e pela qual eu não podia culpar meu país inteiro. Mas a dúvida que martelava na minha cabeça era justamente essa: sabemos? Ou fazemos com nossos vizinhos menores – de tamanho e de PIB, mas não de importância – o mesmo que os maiores do norte fazem conosco e tanto nos ofende, humilha, melindra?

É por isso que eu viajo, enfim. Viajo para conhecer a mim e ao meu país.

 

*Raphael Prado é jornalista e o primeiro colaborador do Lugares e histórias

Sobre fabiana novello

jornalista que gosta de lugares e histórias
Esse post foi publicado em Viagem e marcado , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Viajar é andar milhas e milhas para ver o que está tão perto

  1. somos todos latino-americanos!

  2. Por causa do seu post, amanhã vou abrir o Veias Abertas da América Latina que eu trouxe da Argentina há mais de um ano e ainda não comecei 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s