O pinheiro

Por Fabiana Novello

Na casa da minha infância tinha um pinheiro enorme, já até comentei sobre ele em outro post. E eu amava esse pinheiro. Para entrar na minha casa, tinha que descer uma escada e ao lado dela estava o jardim. O jardim ia acompanhando a escada e, por isso, ele era inclinado. Conseguem imaginar? Se eu desenhasse bem, ficaria mais fácil explicar. Mas não o caso, então tentem imaginar.

Era um pequeno jardim, mas para mim era enorme, afinal, quando a gente é criança, tudo parece grande. E no jardim estava o pinheiro, alto, muito alto; acho até que o topo dele atingia a casa de cima. Não sei de qual espécie era, mas era daqueles que possuem os galhos mais abertos. Eu adorava olhar o pinheiro. Nunca o escalei, até porque isso nunca me passou pela cabeça. E se tivesse passado, não teria coragem porque tenho medo de altura desde sempre.

Por vezes, pensamos em decorá-lo no Natal com luzinhas. Mas nunca fizemos isso e eu nem sei por quê. Talvez por causa do tamanho dele, não sei. Mas nem por isso, no meu imaginário de criança, ele deixava de ser o nosso pinheiro de Natal, mesmo tendo dentro de casa uma árvore montada.

Um dia o pinheiro se foi e restou apenas um pedaço do tronco. Escrevendo esse texto, puxei nas minhas lembranças o motivo, mas não o encontrei. Recorri a minha irmã gêmea, que tem a melhor memória do mundo, mas ela também não se lembrava. Minhas outras duas irmãs também não sabiam. A minha mãe se empolgou com a minha apuração e me ligou pra contar a história do pinheiro. “Esse pinheirinho foi plantado pelas bandeirantes, a tia Tuca, lembra dela? Era uma mudinha. E durante uns 10 anos, elas foram até em casa para cantar músicas de Natal na frente dele”, disse. Que pena que eu ainda não era nascida nessa época.

E por que o Pinheiro foi cortado? A resposta veio do meu pai. “A raiz estava quebrando o chão”, disse. E aí, não teve outro jeito. Saudade, pinheiro. Saudade, infância. Saudades.

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A delicadeza japonesa em São Paulo

Por Fabiana Novello

Japan House

Nem preciso dizer que a identificação entre São Paulo e a cultura japonesa é enorme. Todo mundo sabe disso. O bairro da Liberdade e os restaurantes japoneses são paixões paulistanas. E desde maio deste ano, a capital paulista tem a Japan House, um centro cultural encantador.

Logo quando abriu, eram filas e mais filas nos finais de semana que me fizeram adiar minha visita ao espaço. Mas agora que conheço, já é um dos meus lugares preferidos em São Paulo. É um pedacinho de delicadeza na avenida Paulista.

Na primeira vez que fui só pude admirar a beleza do prédio porque estavam trocando a exposição. E de cara se percebe a modernidade do lugar. Desta segunda vez, vi as mostras “Kengo Kuma – eterno efêmero” e “Subtle – sutilezas em papel”.

Kengo Kuma é o arquiteto responsável pelo prédio da Japan House em São Paulo e é homenageado nessa exposição que fica no térreo. É dele também o projeto do novo Estádio Nacional de Tóquio para os jogos Olímpicos de 2020. A maquete está exposta na mostra e é a única obra que não pode ser fotografada. Uma moça fica ao lado da maquete avisando, de forma muito gentil, que não são permitidas fotos do estádio.

No último andar, está a exposição sobre papel, com trabalhos minimalistas que impressionam demais. É incrível! As duas exposições ficam em cartaz até o dia 10 de setembro.

A Japan House ainda tem um restaurante no segundo andar, um café no térreo e duas lojas com objetos japoneses. No café doces que encantam os olhos. Eu experimentei o Choux Cream, que é uma espécie de carolina recheada com um creme maravilhoso. É um dos melhores doces que já comi, sem exagero.

A Japan House só fecha às segundas-feiras. Acho que o domingo é o dia mais cheio porque quem está na avenida Paulista (fechada para carros nesse dia) aproveita para visitar o espaço. O acesso é fácil e o melhor de tudo é que a entrada é gratuita. É imperdível!

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O frio no frio

Por Fabiana Novello

Campos do Jordão

4 graus foi a temperatura mais baixa que peguei em Campos de Jordão, neste fim de junho de 2017. Não sou do tipo de pessoa que gosta de lugares gelados no inverno, que procura por eles. Eu prefiro fugir do frio no frio. Mas dessa vez valeu a pena sentir o vento gelado que faz os olhos lacrimejarem sem parar.

Fazia tanto tempo que eu não ia a Campos que nem sei dizer quanto. Acho que a última vez que estive na cidade foi num bate e volta a trabalho, para cobrir autoridades na abertura de uma das edições do Festival de Inverno. E, pra falar a verdade, a única coisa que me lembro dessa viagem é da neblina na estrada. Eu não gosto de viajar de carro à noite nem de madrugada, ainda mais com neblina. A sorte é que quem dirigia era o motorista da rádio CBN, onde eu trabalhava na época. Eu não encararia a direção numa situação assim.

Agora, nesse meu retorno, não teve neblina nem motorista. Eu mesma enfrentei as curvas da estrada que dá acesso a Campos do Jordão. E provavelmente eu era a única motorista da estrada que dirigia na velocidade permitida. Os outros todos (ou quase todos) estavam bem mais rápidos, abusando das ultrapassagens perigosas. Quer dizer, perigosas pra mim, né? Para eles, não. Certamente a errada era eu: uma tartaruga no meio do caminho deles.

Mas enfim, eu voltei a Campos do Jordão agora por um motivo muito especial: o casamento de uma amiga querida que o jornalismo me deu. Um casamento lindo, numa paisagem incrível e cheio de alegria. E isso já tornou a viagem maravilhosa.

Campos é uma graça, mas todos sabem que o inverno é a época que a cidade fica mais cheia. O trânsito é muito carregado, os lugares são lotados, com fila pra beber e pra comer. A cidade fica pequena demais pra tanto turista. Por isso, é preciso paciência. Eu optei por andar a pé, apesar do frio. De manhã e à tarde, o sol deixa a caminhada agradável.

Os preços também são altos. É preciso pesquisar bem a hospedagem pra conseguir um valor bom em pousadas e hotéis. E sempre tem a possibilidade de alugar uma casa pra quem vai em turma grande. O chocolate, uma das atrações das guloseimas locais, é bom, mas não vale o preço: 100g por R$ 17,90 me parece um exagero.

E enquanto muitos preferem os bares, restaurantes e lojas de Capivari, eu prefiro as árvores e o céu azul. Aliás, as paisagens de Campos do Jordão são lindas, são a maior atração da cidade.

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Quanto tempo

Por Fabiana Novello

Cruzeiro

Cruzeiro

Faz quase um ano que eu não escrevo aqui. Um ano! Me dei conta disso hoje, quando entrei no blog para copiar o link do post sobre o Cânion do Xingó e mandar para uma amiga. E fiquei pensando sobre o que me levou a uma pausa tão grande, afinal escrever é uma das coisas que mais gosto de fazer.

Eu podia ter escrito sobre São Paulo, sobre os lugares da minha cidade por onde passei em 2016, sobre o parque Trianon, as ocupações irregulares do Morro Doce, a Augusta, a Pompeia, o centro, as bandas da Paulista… sobre como São Paulo será sempre a minha cidade.

Eu podia ter escrito sobre Cruzeiro, no interior paulista. Sobre dirigir durante quatro horas para ir ao casamento de uma amiga, sobre a estrada, as paisagens, a Igreja… Eu podia ter escrito sobre Aracaju, sobre a comida e as praias, sobre como a pequena cidade me conquistou.

Eu podia ter escrito de novo sobre Havana, Cartagena, Montevidéu, Madri ou Lisboa. Podia, mas não escrevi. Talvez por preguiça, por falta de inspiração ou pior: por não ter observado direito alguns lugares ou não ter prestado atenção em algumas histórias.

Enfim, voltei.

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Pequenas histórias 5

Por Fabiana Novello

Aracaju, Sergipe. Aeroporto. Pequeno, vazio, sem filas. Sala de embarque. Ainda faltam duas horas para o voo. Nada pra fazer. Olho o celular… o jeito é me distrair com a Internet.

— Moça, por favor, sabe qual é o wifi daqui?

— Não tem… como eu posso dizer… não é liberado.

— Mas tem ali a indicação, a placa dizendo que tem.

— Tem a placa… mas só a placa. Não dá para usar, não. É só pra enganar, pra dizer que tem.

Por Leda Letra*

Nova York. 5ª Avenida com Rua 59. Chego 15 minutos atrasada. 10 graus Celsius negativos. Não o encontro. Começo a tirar fotos do Central Park todo encoberto pela neve. Mais 10 minutos, nada dele.

— Esperando alguém? – pergunta o vendedor ambulante.

— Sim, um amigo.

— Está muito frio. Vá para o hotel, o espere por lá.

— Tudo bem, já já ele chega.

Mais 10 minutos e nada. Mãos e pés congelando. Celular apita. Atrasado, mas a caminho.

— Você vai continuar aqui na esquina? Então aproveita, meu amigo aqui pode fazer a sua caricatura.

— Não, obrigada.

— Tem certeza? Vai ficar boa! Vai mostrar bem sua cara de brava esperando no frio.

— Não, não, tá tudo bem.

— Então faz assim: quando ele chegar, manda ele pro inferno!

Sete anos depois, ainda vivo esse diálogo na minha cabeça todas as vezes que passo por essa esquina…

*Leda Letra é jornalista, mora em Nova York e tem vários textos neste blog

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Calor em SP, neve em NY

Por Fabiana Novello e Leda Letra*

Parque Trianon, São Paulo.

Parque Trianon, São Paulo.

São Paulo, domingo, 29 graus. Finalmente o Verão voltou! Os últimos dias mais pareciam de Outono. Detesto Outono. O Sol e o calor deixam a minha São Paulo mais alegre, mais disposta à felicidade.

Avenida Paulista. Meu destino de vários domingos agora. Bicicleta, skate, patinete, patins, a pé. Cada um vai como quer. Pastel, hambúrguer, yakisoba, acarajé, cachorro quente, massa, tapioca, brigadeiro. Tem comida para todos os gostos. Música. Em quase todos os quarteirões. O Elvis está todo domingo em frente ao Conjunto Nacional. E sempre tem gente assistindo.

Parque Trianon. “Um pedaço da Mata Atlântica na Paulista”. Cheiro de mato, ar mais fresco. Hoje olhei para ele com mais mais atenção. As árvores são tão altas que cobrem o céu. É tão bonito…

Mirante 9 de julho. Mais música. Irmã, sobrinho, cunhado, amiga da irmã. Uma taça de espumante. Chuva. De Verão! Tim tim, São Paulo!

 

Nova York

Ao fundo, carro coberto pela neve. Nova York.

Nova York, domingo, sensação térmica de menos 8 graus. Os ventos chegaram a 50 km/h. Depois da tempestade, a calmaria. Ou não. Aproveitei o domingo para acordar as 9h, bem mais tarde do que o habitual. A cafeteria perto de casa estava aberta e andar dois quarteirões foi uma aventura. Bota de borracha com forro para aquecer os pés do frio. Tanta, tanta neve acumulada. O NY Times fala em um acúmulo de 70 cm.

O domingo foi de muito Sol e de pouca gente nas ruas. Crianças brincavam na neve, zeladores limpavam as calçadas, utilizando pás, máquinas e sal. Outros tiravam a neve do entorno de seus carros (muitos carros foram “engolidos” pela nevasca).

Café fresco e panqueca. Só porque hoje domingo! Uma parada rápida no supermercado para abastecer a dispensa e curtir mais um dia de preguiça. Voltamos para casa só para buscar nosso cachorro, um filhote brincalhão que adorou a neve. Sai correndo, come gelo, uma festa.

Não faz tanto frio, mas nossa tarde foi em casa, no sofá, vendo filmes. Uma das piores nevascas de Nova York passou, só que o pior vem agora. Essa neve acumulada vai demorar semanas para derreter. Ficará suja. O Sol transforma a neve, antes fofa, em pedaços de gelo, um perigo para pedestres e motoristas. Com certeza será caótico usar ônibus e metro na segunda-feira.  Mas esse é um problema para amanhã. Hoje ainda é domingo, dia de viver o rescaldo dessa histórica tempestade.

*Leda Letra é jornalista e assina vários textos neste blog

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Cânion do Xingó

Por Fabiana Novello

Gruta do Talhado. Cânion do Xingó.

Gruta do Talhado. Cânion do Xingó.

Meu encontro com o rio São Francisco não poderia ter sido melhor. Fomos apresentados durante uma viagem a Aracaju, em Sergipe. Era uma terça-feira de outubro de 2015, com muito Sol e calor. Nos tornarmos amigos.

O passeio era para o Cânion do Xingó formado pelas águas represadas pela hidrelétrica. A viagem até lá é longa e muito, muito, muito cansativa. Mas vale tanto a pena… Vale cada minuto dentro de uma van ou carro, cada segundo de calor passado. Vale demais! Porque é daqueles lugares que fazem a gente agradecer por existir, agradecer por viver.

Quem está em Aracaju, como eu estava, o ideal é sair bem cedo e seguir até Canindé de São Francisco, que fica a 212 km da capital sergipana. São 3 horas de viagem. No caminho, as paisagens do sertão e povoados. Que país diverso! Em Canindé, você pega um catamarã e navega durante uma hora pelo rio São Francisco. Que imensidão! Como é bonito esse tal de Velho Chico! Meu encantamento já começou ali.

Depois de uma hora navegando os paredões rochosos começam a aparecer e suas formas desafiam a imaginação do visitante. A velocidade da embarcação vai diminuindo… e os olhos vão se enchendo de tanta beleza.

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Meu lugar encantado. Gruta do Talhado.

O catamarã para num ponto de apoio. É hora de conhecer o trecho mais bonito do passeio: a Gruta do Talhado. Só canoas navegam ali. A água é verde, o caminho estreito, as rochas enormes. Pelas frestas, o céu azul. É a paisagem mais bonita que já vi. É o lugar mais encantado do meu pequeno mundo.

De volta ao ponto de apoio, é hora de mergulhar no rio São Francisco. Dizem que ali são 30 metros de profundidade. Me dá vertigem só de imaginar. Mas há uma rede no espaço reservado para o banho de rio que limita a profundidade a 10 metros. Perco o ar só de pensar. Mas, calma, para quem, como eu, a água fascina e causa medo, há coletes. E tem também um espaço bem mais, digamos assim, modesto, que deve ter 1 metro e 40 de profundidade. A água é densa, nem fria nem quente. Uma delícia!

E depois de tanto encantamento, tem a viagem de volta. Mais uma hora no catamarã. Almoço e mais três horas até Aracaju. Pra ser menos cansativo, acho que o ideal é passar a noite em Canindé. Eu faria tudo de novo. Já disse e repito: vale cada minuto. É o São Francisco! Muito prazer em te conhecer!

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